Eu também preciso caber dentro do meu próprio amor
Eu também preciso caber dentro do meu próprio amor
Eu sempre quis ser uma pessoa melhor.
Mais consciente, cuidadosa, amorosa, justa e sincera com os outros — e, principalmente, comigo.
Talvez essa vontade tenha me acompanhado por tanto tempo que, às vezes, eu me esqueça de uma coisa bastante simples: eu não preciso ser perfeita para ser uma pessoa boa.
Às vezes eu faço merda. Às vezes sou egoísta, impaciente, injusta, digo coisas que não deveria ou tomo decisões das quais me arrependo depois. Às vezes machuco alguém sem querer. Às vezes me machuco tentando acertar.
E, nesses momentos, tenho uma tendência quase automática de me deixar levar pela culpa.
Não aquela culpa que nos faz olhar para o que fizemos e assumir a responsabilidade. Essa, talvez, seja necessária. Falo daquela culpa que vai além do erro e começa a transformar o erro em identidade.
Eu fiz algo ruim, então sou ruim.
Eu errei com alguém, então não sou uma pessoa digna.
Eu deveria ter feito diferente, então passo horas me castigando mentalmente por não ter sido a versão de mim que eu gostaria de ter sido.
É aí que começo a me discriminar.
E talvez uma das coisas mais difíceis de aprender na vida adulta seja justamente separar responsabilidade de autopunição.
Assumir aquilo que fiz, pedir desculpas quando for necessário, tentar reparar o que puder ser reparado e aprender com a experiência me parece muito mais honesto do que passar o resto do dia me condenando por ela.
Acho que se livrar desse peso começa quando a gente consegue olhar para ele de frente.
“Sim, eu fiz isso.”
“Sim, poderia ter feito diferente.”
“Sim, sinto muito.”
“E agora eu vou tentar fazer melhor.”
Talvez seja isso que significa se redimir: não fingir que nada aconteceu, mas também não carregar para sempre uma sentença que nós mesmos escrevemos.
Porque eu, nós, somos absolutamente bons do jeito que somos — inclusive quando somos imperfeitos.
Isso não significa que tudo o que fazemos é certo. Significa apenas que um erro não precisa apagar todo o resto.
E talvez aceitar isso em mim também me ajude a aceitar nos outros.
A pensar duas vezes antes de julgar alguém e suas escolhas. A lembrar que não conheço todas as circunstâncias, todas as dores, todos os medos e todas as contradições que levaram uma pessoa até determinado lugar.
A vida fica mais leve quando a gente deixa de exigir de si e dos outros uma espécie de pureza impossível.
E eu quero essa leveza.
Quero ter tempo para me apaixonar.
Quero dançar sem pensar demais.
Quero cozinhar cantarolando pela casa.
Quero rir até doer a barriga.
Quero sorrir com verdade.
Quero poder mudar de ideia sem sentir que estou traindo quem eu era ontem.
Quero poder reconhecer que uma escolha não funcionou sem transformar isso em prova de que sou incapaz de escolher.
Quero continuar tentando ser uma pessoa melhor, mas não às custas de deixar de gostar da pessoa que já sou.
Talvez amadurecer tenha um pouco disso: perceber que melhorar não precisa significar se consertar o tempo inteiro.
Posso querer ser mais consciente sem acreditar que sou inconsciente.
Posso querer ser mais amorosa sem concluir que não sei amar.
Posso reconhecer meus erros sem me tornar o meu próprio algoz.
E, quando penso nas decisões que tomo, percebo que existe uma coisa que quero preservar cada vez mais: o meu eu inviolável.
Assim como quero considerar ao máximo que minhas escolhas não prejudiquem ninguém, quero considerar também o que elas fazem comigo.
Porque não quero construir uma vida inteira tentando ser uma pessoa boa para os outros enquanto, no processo, me abandono.
Quero ter responsabilidade, mas também liberdade.
Quero ter consciência, mas também espontaneidade.
Quero cuidar dos outros, mas sem esquecer que eu também sou alguém de quem preciso cuidar.
No fim, talvez o fundamental seja mesmo o amor.
Não apenas o amor que oferecemos.
Mas aquele que aprendemos, aos poucos, a oferecer a nós mesmos.
Um amor que não passa a mão na nossa cabeça quando erramos, mas também não nos abandona por causa dos nossos erros.
Um amor capaz de dizer: você poderia ter feito melhor.
E, ainda assim:
você continua sendo digna de amor.
Talvez seja essa a pessoa melhor que eu sempre quis ser.
Não uma versão impecável de mim.
Só alguém que consegue errar, reconhecer, aprender, perdoar e continuar.
Mais leve.
Mais inteira.
Mais eu.







