A vida está começando pela centésima vez
A vida está começando pela centésima vez
Ando esquisita.
Tenho essa constante sensação de que espero num limbo, num meio-lugar oco, num espaço vazio entre o que a minha vida já foi e o que ainda pode ser.
É como se eu me sentasse numa encruzilhada bizarra onde são zilhões de caminhos que se trançam em direções diferentes. Eu olho para todos, mas não sei qual escolher. Há muito tempo minha cabeça não cala a boca. Trabalha o tempo inteirinho tentando prever o destino exato de cada curso, como se fosse possível olhar para uma estrada e saber, antes de colocar os pés nela, onde exatamente ela vai terminar.
É essa ânsia por controle. Por conhecer cada poeira do chão. Sempre, sempre ela.
Talvez eu tenha passado tempo demais tentando descobrir qual era o caminho certo.
A gente cresce acreditando que, em algum momento, a vida vai finalmente se organizar. Primeiro vem a escola, depois a faculdade, depois o trabalho, depois alguma espécie de estabilidade que ninguém sabe explicar muito bem, mas que parece estar sempre logo ali na próxima esquina. Existe uma ordem invisível que nos ensinam a seguir, e durante muito tempo eu simplesmente fui seguindo.
Até que, em algum momento, percebi que não sabia mais para onde estava indo.
E o curioso é que não aconteceu nenhuma grande tragédia. Não houve um momento cinematográfico em que tudo desmoronou e eu precisei reconstruir minha vida do zero. Foi mais silencioso do que isso.
Algumas coisas simplesmente deixaram de fazer sentido.
Algumas certezas perderam a força. Algumas versões de mim ficaram para trás. Algumas vontades que eu achava que seriam permanentes desapareceram sem fazer alarde.
E então sobrou essa coisa estranha chamada liberdade.
Eu achava que queria ser livre.
Agora que sou, não me lembro mais de como escolher.
Talvez seja esse o preço de passar tanto tempo seguindo caminhos que não são exatamente nossos. A gente se acostuma tanto com a ideia de que existe uma direção correta que, quando finalmente pode escolher, confunde liberdade com perigo.
Cada possibilidade parece enorme demais.
E cada direção da estrada é um espaço liminar diferente: um lugar que reconheço sem jamais ter visitado, uma amada lembrança da infância que não me pertence.
É estranho como o futuro consegue ter gosto de nostalgia.
Às vezes olho para uma possibilidade e sinto como se já tivesse vivido aquilo. Outras vezes, algo completamente novo me parece familiar. Cada caminho carrega um pedaço de alguma coisa que fui, alguma coisa que quis ser, alguma coisa que talvez nunca tenha sido.
“Já estive aqui antes, mas não sei onde estou.”
Talvez seja por isso que tudo pareça tão confuso.
Tudo que vejo é uma mistura indistinta de chance e memória.
Tenho vontade de fazer mil coisas e, ao mesmo tempo, vontade de não fazer coisa nenhuma. Quero mudar, mas também quero ficar. Quero estabilidade, mas tenho medo de passar mais uma vez anos construindo uma vida que não parece minha. Quero saber o que vem depois, mas sei que, se soubesse, provavelmente encontraria algum outro detalhe para me preocupar.
Minha cabeça insiste em transformar todas as possibilidades em planilhas imaginárias.
E se eu escolher isso?
E se eu escolher aquilo?
E se eu estiver perdendo tempo?
E se eu estiver atrasada?
E se eu finalmente estiver no caminho certo?
E se não existir caminho certo nenhum?
Talvez essa última pergunta seja a mais difícil.
Porque existe uma espécie de conforto perverso em acreditar que, se pensarmos o suficiente, conseguiremos encontrar a escolha perfeita. Como se houvesse uma combinação exata de decisões capaz de garantir que nunca vamos nos arrepender.
Mas talvez escolher seja justamente aceitar que não existe garantia.
Que toda estrada tem partes bonitas e partes chatas. Que algumas escolhas só parecem certas depois que já foram feitas. Que algumas coisas só conseguimos entender olhando para trás. Que podemos entrar em uma rua, andar alguns quilômetros e descobrir que não queremos mais estar ali.
E podemos voltar.
Podemos mudar.
Podemos começar de novo.
Talvez seja isso que eu ainda esteja aprendendo: que começar de novo não significa necessariamente que fracassamos no começo anterior.
Às vezes significa apenas que crescemos para além dele.
Acho engraçado pensar que, aos poucos, fui deixando de acreditar que precisava ter uma identidade completamente definida. Como se eu precisasse decidir de uma vez por todas quem sou, o que quero, onde quero morar, com quem quero estar, que trabalho quero fazer, que tipo de vida quero construir — e então passar o resto dos anos apenas executando esse projeto.
Mas eu não sou um projeto.
Sou uma pessoa.
E pessoas mudam de ideia.
Talvez eu esteja justamente naquele intervalo desconfortável entre uma versão minha que já conheço e outra que ainda não sei quem será.
É um lugar estranho.
Não tenho mais algumas das certezas que tinha antes, mas ainda não encontrei novas certezas para colocar no lugar.
E talvez tudo bem.
Talvez eu não precise preencher imediatamente todos os espaços vazios.
Talvez eu possa simplesmente ficar aqui por um tempo.
Sentada nessa encruzilhada absurda, olhando para todas as estradas, sem precisar escolher uma hoje.
A vida não precisa ser resolvida numa quinta-feira à noite.
Nem neste mês.
Nem neste ano.
Talvez eu possa caminhar um pouco por uma estrada só para descobrir como ela é. Sem transformar cada passo em uma decisão definitiva. Sem exigir que cada escolha tenha um significado profundo. Sem precisar saber se aquilo vai durar cinco anos ou cinco dias.
Talvez liberdade seja menos sobre saber escolher e mais sobre saber que posso escolher novamente.
E é estranho perceber que, depois de tanto tempo tentando descobrir exatamente para onde estou indo, talvez eu finalmente esteja começando a entender que não preciso saber.
Minha vida está começando.
Pela centésima vez essa semana.