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Ciúme não é prova de amor — e vigilância não é segurança

Ciúme não é prova de amor — e vigilância não é segurança


Vou mentir. Ou melhor: vou escrever uma coisa que talvez eu ainda esteja tentando internalizar. Talvez seja uma espécie de mentira para mim mesma até o dia em que ela deixe de ser mentira e vire convicção.

É normal sentir ciúmes.

Acho que seria até estranho imaginar que alguém que amamos nunca sentiria aquele pequeno aperto no peito diante de alguma situação. Principalmente quando estamos mais vulneráveis, mais inseguras, cansadas, sensíveis ou simplesmente com os hormônios fazendo uma reunião extraordinária dentro da nossa cabeça.

Às vezes a pessoa ao nosso lado pode fazer tudo certo. Pode ser carinhosa, presente, transparente, respeitosa. Pode nos dar motivos concretos para confiar nela. E ainda assim, em determinado momento, alguma coisa dentro da gente pode disparar.

O problema começa quando a gente acredita que precisa fazer alguma coisa com esse sentimento.

- Investigar.

- Perguntar.

- Conferir.

- Observar curtidas.

- Interpretar silêncio.

Tentar descobrir quem aquela pessoa segue, quem ela olhou, quem comentou alguma coisa, por que demorou para responder. Como se, depois de descobrir informação suficiente, finalmente pudéssemos controlar o que o outro vai fazer. Mas não podemos.

E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de aceitar sobre estar em um relacionamento: a pessoa que está com você continua sendo uma pessoa livre.

Você pode ser a melhor companheira do mundo e, ainda assim, não pode garantir as escolhas do outro.

- Pode amar muito.

- Pode ser bonita.

- Pode ser interessante.

- Pode estar presente.

- Pode respeitar.

- Pode fazer tudo o que estiver ao seu alcance para construir uma relação saudável.

E, ainda assim, se um dia o outro escolher ser desleal, essa escolha será dele. Não sua. Isso me faz pensar que talvez a pergunta mais importante não seja:

“Como faço para ter certeza de que essa pessoa nunca vai me trair?”

Mas:

“Eu estou em paz com a maneira como estou vivendo essa relação?”

Porque, no fim, a minha consciência é uma das poucas coisas que realmente estão sob o meu controle.

Se eu estou sendo leal, honesta, respeitosa e inteira naquela relação, não quero passar os meus dias tentando administrar o caráter de outra pessoa.

Porque quem quer ser desleal vai encontrar uma maneira de fazer isso. Não importa quantas perguntas você faça, quantas mensagens confira ou quantas vezes pergunte onde a pessoa estava.

Vigilância não cria caráter.

Controle não cria lealdade.

E ciúme não impede ninguém de fazer aquilo que já decidiu fazer.

Isso não significa aceitar qualquer coisa. Muito pelo contrário. Uma coisa é eu não querer viver em estado permanente de desconfiança. Outra é eu não ter limites.

Se um dia eu descobrir uma traição, eu posso até perdoar. Perdoar, para mim, não significa fingir que nada aconteceu. Também não significa necessariamente continuar oferecendo a mesma intimidade para aquela pessoa.

Eu acredito que posso perdoar alguém e, ainda assim, entender que aquela pessoa perdeu o acesso que tinha a mim. Porque confiança, para mim, é um dos pilares de uma relação. E quando ela é quebrada, alguma coisa muda.

Não importa o quanto a pessoa esteja arrependida. Não importa o quanto chore, prometa ou diga que nunca mais vai acontecer.

Talvez algumas relações consigam reconstruir a confiança depois de uma traição. Eu não sei.

Mas eu sei que não gostaria de permanecer em uma relação apenas porque tenho medo de perder alguém. Não quero amar alguém enquanto tento descobrir se deveria estar com medo.

Quero poder admirar quem está ao meu lado.

Quero respeito.

Quero lealdade.

Quero confiança.

Quero poder estar longe da pessoa sem transformar a distância em investigação.

E talvez essa seja a parte que eu ainda estou aprendendo: eu não preciso controlar alguém para estar segura. A minha segurança também precisa existir dentro de mim.

Porque se algum dia alguém escolher me trair, isso vai dizer alguma coisa sobre aquela pessoa. Não vai ser uma prova de que eu não fui bonita o suficiente, interessante o suficiente, carinhosa o suficiente ou boa o suficiente.

Às vezes a gente olha para uma traição e imediatamente pergunta:

“Mas o que eu fiz de errado?”

Talvez essa nem sempre seja a pergunta certa. Talvez a pergunta seja:

“Que tipo de escolha essa pessoa decidiu fazer?”

E existe uma liberdade muito grande em perceber isso. Eu posso amar alguém sem vigiar. Posso sentir ciúmes sem transformar o ciúme em comportamento. Posso ficar insegura em um dia ruim e, ainda assim, não construir uma história inteira em cima de uma emoção passageira. Posso confiar sem ser ingênua.

E posso perdoar alguém sem necessariamente devolver a essa pessoa o lugar que ela ocupava na minha vida.

No fundo, talvez amar alguém também seja aceitar que não temos controle absoluto sobre o que o outro fará. E confiar não é ter certeza de que nunca seremos machucados.

É saber que, se um dia alguém escolher nos machucar, nós continuaremos tendo a nós mesmas para voltar.



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Eu também preciso caber dentro do meu próprio amor

Eu também preciso caber dentro do meu próprio amor


Eu sempre quis ser uma pessoa melhor.

Mais consciente, cuidadosa, amorosa, justa e sincera com os outros — e, principalmente, comigo.

Talvez essa vontade tenha me acompanhado por tanto tempo que, às vezes, eu me esqueça de uma coisa bastante simples: eu não preciso ser perfeita para ser uma pessoa boa.

Às vezes eu faço merda. Às vezes sou egoísta, impaciente, injusta, digo coisas que não deveria ou tomo decisões das quais me arrependo depois. Às vezes machuco alguém sem querer. Às vezes me machuco tentando acertar.

E, nesses momentos, tenho uma tendência quase automática de me deixar levar pela culpa.

Não aquela culpa que nos faz olhar para o que fizemos e assumir a responsabilidade. Essa, talvez, seja necessária. Falo daquela culpa que vai além do erro e começa a transformar o erro em identidade.

Eu fiz algo ruim, então sou ruim.

Eu errei com alguém, então não sou uma pessoa digna.

Eu deveria ter feito diferente, então passo horas me castigando mentalmente por não ter sido a versão de mim que eu gostaria de ter sido.

É aí que começo a me discriminar.

E talvez uma das coisas mais difíceis de aprender na vida adulta seja justamente separar responsabilidade de autopunição.

Assumir aquilo que fiz, pedir desculpas quando for necessário, tentar reparar o que puder ser reparado e aprender com a experiência me parece muito mais honesto do que passar o resto do dia me condenando por ela.

Acho que se livrar desse peso começa quando a gente consegue olhar para ele de frente.

“Sim, eu fiz isso.”

“Sim, poderia ter feito diferente.”

“Sim, sinto muito.”

“E agora eu vou tentar fazer melhor.”

Talvez seja isso que significa se redimir: não fingir que nada aconteceu, mas também não carregar para sempre uma sentença que nós mesmos escrevemos.

Porque eu, nós, somos absolutamente bons do jeito que somos — inclusive quando somos imperfeitos.

Isso não significa que tudo o que fazemos é certo. Significa apenas que um erro não precisa apagar todo o resto.

E talvez aceitar isso em mim também me ajude a aceitar nos outros.

A pensar duas vezes antes de julgar alguém e suas escolhas. A lembrar que não conheço todas as circunstâncias, todas as dores, todos os medos e todas as contradições que levaram uma pessoa até determinado lugar.

A vida fica mais leve quando a gente deixa de exigir de si e dos outros uma espécie de pureza impossível.

E eu quero essa leveza.

Quero ter tempo para me apaixonar.

Quero dançar sem pensar demais.

Quero cozinhar cantarolando pela casa.

Quero rir até doer a barriga.

Quero sorrir com verdade.

Quero poder mudar de ideia sem sentir que estou traindo quem eu era ontem.

Quero poder reconhecer que uma escolha não funcionou sem transformar isso em prova de que sou incapaz de escolher.

Quero continuar tentando ser uma pessoa melhor, mas não às custas de deixar de gostar da pessoa que já sou.

Talvez amadurecer tenha um pouco disso: perceber que melhorar não precisa significar se consertar o tempo inteiro.

Posso querer ser mais consciente sem acreditar que sou inconsciente.

Posso querer ser mais amorosa sem concluir que não sei amar.

Posso reconhecer meus erros sem me tornar o meu próprio algoz.

E, quando penso nas decisões que tomo, percebo que existe uma coisa que quero preservar cada vez mais: o meu eu inviolável.

Assim como quero considerar ao máximo que minhas escolhas não prejudiquem ninguém, quero considerar também o que elas fazem comigo.

Porque não quero construir uma vida inteira tentando ser uma pessoa boa para os outros enquanto, no processo, me abandono.

Quero ter responsabilidade, mas também liberdade.

Quero ter consciência, mas também espontaneidade.

Quero cuidar dos outros, mas sem esquecer que eu também sou alguém de quem preciso cuidar.

No fim, talvez o fundamental seja mesmo o amor.

Não apenas o amor que oferecemos.

Mas aquele que aprendemos, aos poucos, a oferecer a nós mesmos.

Um amor que não passa a mão na nossa cabeça quando erramos, mas também não nos abandona por causa dos nossos erros.

Um amor capaz de dizer: você poderia ter feito melhor.

E, ainda assim:

você continua sendo digna de amor.

Talvez seja essa a pessoa melhor que eu sempre quis ser.

Não uma versão impecável de mim.

Só alguém que consegue errar, reconhecer, aprender, perdoar e continuar.

Mais leve.

Mais inteira.

Mais eu.



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