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No fim, era igual a todos os outros

No fim, era igual a todos os outros


Existe uma tristeza muito particular em gostar de alguém e, aos poucos, perceber que essa pessoa era igual a todas as outras que passaram pela nossa vida. Não porque todas sejam iguais, necessariamente, mas porque algumas decepções parecem seguir um roteiro tão conhecido que, quando nos damos conta, temos a sensação de estar vivendo a mesma história pela enésima vez.

No começo, a gente acredita que encontrou alguém diferente. Talvez pela maneira como conversa, pelas palavras que escolhe, pela atenção que demonstra ou simplesmente pela esperança que desperta. A gente observa pequenos gestos e começa a imaginar que, dessa vez, pode ser diferente. Que talvez exista alguém disposto a fazer as coisas com um pouco mais de cuidado, honestidade e consideração.

Mas o tempo passa e as atitudes começam a contar uma história diferente daquela que as palavras prometiam.

E então percebemos que era mais uma pessoa que gostava de parecer boa, mas não tinha o cuidado necessário para não machucar. Mais alguém que sabia falar sobre respeito, carinho e boas intenções, mas que, diante da oportunidade de agir com responsabilidade afetiva, preferiu fingir que nada tinha acontecido.

Alguém que machucou e seguiu a vida sem sequer pedir desculpas. Como se o sentimento do outro fosse um detalhe inconveniente, como se não houvesse nada a reparar.

É curioso como algumas pessoas fazem questão de construir uma imagem de si mesmas como pessoas boas. Gostam de ser vistas como gentis, sensíveis, corretas, diferentes daquelas que machucam os outros. Mas ser uma pessoa boa não deveria ser apenas uma questão de aparência. Também deveria aparecer na maneira como tratamos alguém quando já não temos interesse, quando não queremos mais continuar ou quando percebemos que despertamos sentimentos que não pretendemos corresponder.

Porque não existe tanta bondade assim em oferecer pequenas doses de atenção a alguém que deseja uma relação inteira. Não existe cuidado em aparecer quando bate a carência, demonstrar interesse quando sentimos falta de companhia e desaparecer quando o outro começa a acreditar que existe alguma possibilidade.

E talvez uma das coisas mais desrespeitosas seja oferecer migalhas como se fossem um grande gesto. Como se a pessoa do outro lado devesse agradecer por uma mensagem ocasional, por uma demonstração de afeto sem continuidade, por uma presença que nunca se transforma em escolha.

Como se não tivéssemos aprendido, depois de tantas experiências, que gostar de alguém não significa aceitar qualquer coisa que essa pessoa esteja disposta a oferecer.

O mais triste é que, quando gostamos, tentamos encontrar explicações. Pensamos que talvez a pessoa esteja confusa, que tenha medo, que esteja atravessando uma fase complicada ou que simplesmente precise de mais tempo. Procuramos justificativas porque ainda existe carinho, porque não queremos acreditar que alguém que parecia tão interessante possa ser apenas mais uma repetição de tudo aquilo que já nos fez sofrer.

Mas chega um momento em que precisamos parar de procurar explicações para atitudes que já nos deram respostas suficientes.

Talvez a pessoa até gostasse de nós. Talvez tenha sentido saudade, atração, vontade de estar perto. Talvez tenha gostado da nossa companhia e de tudo aquilo que recebia quando estávamos disponíveis. Mas gostar não é necessariamente querer construir alguma coisa. E, definitivamente, não é o mesmo que estar disposto a permanecer.

Existem pessoas que gostam o suficiente para se aproximar, mas não o suficiente para ficar. Que querem experimentar a nossa presença, mas não assumir a responsabilidade de fazer parte da nossa vida. Que não querem necessariamente nos perder, mas também não demonstram vontade de nos escolher.

E é nesse lugar indefinido que a gente começa a se perder.

Até que um dia a ficha cai. Não porque deixamos de sentir alguma coisa de uma hora para outra, mas porque finalmente entendemos que não queremos repetir a mesma história. Não queremos mais ser a pessoa compreensiva que aceita o que machuca, que releva o que não deveria, que espera por uma atitude que talvez nunca venha.

Não queremos mais transformar falta de consideração em mal-entendido, ausência em mistério e migalhas em sinais de esperança.

E existe algo profundamente frustrante em perceber que, mais uma vez, depositamos expectativas em alguém que não estava disposto a corresponder. É quase como se a decepção não fosse apenas com aquela pessoa, mas também com a nossa própria esperança. Com a parte de nós que ainda acreditava que poderia encontrar uma experiência diferente.

Mas talvez não devêssemos nos envergonhar por isso.

Continuar acreditando que existem pessoas capazes de gostar com honestidade, de conversar quando algo não vai bem, de reconhecer quando machucam e de permanecer quando a relação exige um pouco mais de maturidade não é ingenuidade. O problema nunca foi querer algo verdadeiro. O problema é tentar encontrar isso em alguém que insiste em oferecer tão pouco.

Não precisamos nos tornar pessoas desconfiadas, frias ou incapazes de demonstrar carinho só porque algumas pessoas não souberam o que fazer com ele. Também não precisamos fingir que não nos importamos para provar que aprendemos alguma coisa.

Podemos sentir tristeza, sentir falta e até lamentar que não tenha sido diferente. Podemos gostar de alguém e, ainda assim, reconhecer que não queremos mais aquela pessoa ocupando um espaço que ela não demonstra disposição para cuidar.

No fim, talvez a maior mudança não seja encontrar alguém que nunca nos decepcione. É aprender a não abandonar a nós mesmos quando alguém o faz.

Porque já conhecemos essa história. Já sabemos como termina quando aceitamos menos do que precisamos, quando confundimos presença ocasional com interesse e quando esperamos que alguém se transforme na pessoa que imaginamos que poderia ser.

Dessa vez, podemos escolher outro final.

Não precisamos odiar quem nos decepcionou. Não precisamos fazer uma lista de defeitos, procurar culpados ou esperar que a pessoa reconheça tudo o que fez. Às vezes, basta aceitar que não era aquilo que procurávamos e que não queremos mais participar de uma história em que precisamos convencer alguém a ficar.

Que pena que tenha sido igual a todos os outros.

Mas que bom que, dessa vez, a gente percebeu antes de se perder completamente.

No fim, era igual a todos os outros


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