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05/10/2026
Eu não sei ser ficante
Eu não sei quem inventou esse tipo de relação, mas confesso que eu não sei ser ficante.
Acho curioso porque sou uma pessoa bastante mente aberta. Não tenho vontade de dizer como os outros devem viver, amar, se relacionar ou construir suas histórias. Acho que cada pessoa precisa encontrar o formato de relacionamento que faça sentido para ela.
Mas, quando se trata de mim, eu sou muito mais careta do que pareço.
Eu gosto de relações definidas.
Gosto de saber onde estou pisando. Gosto de saber o que somos, o que estamos construindo e se existe, de fato, uma vontade dos dois de descobrir até onde aquilo pode chegar.
Não porque eu precise de garantias sobre o futuro.
Eu sei que ninguém pode prometer que uma relação vai durar para sempre. Sei que duas pessoas podem começar muito apaixonadas e, depois de algum tempo, perceber que não combinam. Sei que sentimentos mudam, que planos mudam e que algumas histórias simplesmente chegam ao fim.
Tudo bem.
O que eu não consigo fazer é começar uma história sem saber se estamos, de fato, vivendo a mesma história.
Eu gosto de exclusividade.
Quando começo a gostar de alguém, naturalmente deixo de procurar outras pessoas. Não porque alguém tenha colocado uma regra sobre mim, mas porque é assim que o meu sentimento funciona.
Eu quero conhecer uma pessoa.
Quero prestar atenção nela.
Quero saber do que ela gosta, o que a assusta, quais são os sonhos que ela ainda não contou para muita gente, o que faz seus olhos brilharem e quais feridas ela carrega.
Quero criar intimidade.
E, para mim, é difícil construir intimidade enquanto existe uma fila de pessoas esperando pela mesma atenção.
Talvez eu seja careta.
Mas eu gosto da ideia de duas pessoas decidirem olhar uma para a outra e dizer: vamos ver o que existe aqui.
Não significa que já somos namorados.
Não significa que existe uma promessa de casamento.
Não significa que precisamos saber onde estaremos daqui a cinco anos.
Significa apenas que, enquanto estamos nos conhecendo, existe uma escolha consciente de dar espaço para aquela relação crescer.
Porque eu acredito que vínculo precisa de espaço.
E espaço, para mim, não é ter várias pessoas ao redor e tentar descobrir qual delas funciona melhor.
É permitir que uma pessoa seja conhecida de verdade.
Eu não quero ser a opção que está sendo comparada com outras.
Também não quero colocar alguém nessa posição.
Quando gosto de alguém, eu fico leal.
Fico dedicada.
Fico interessada.
Quero saber como foi o dia, quero comemorar as conquistas, quero estar por perto quando as coisas não estiverem tão boas.
Quero ser suporte.
Quero que a pessoa saiba que existe alguém torcendo sinceramente por ela.
Se ela tiver um sonho, quero poder dizer: “eu acredito em você”.
Se estiver passando por uma fase difícil, quero estar ali.
Se conseguir alguma coisa que desejava há anos, quero ser uma das pessoas que comemoram junto.
Talvez seja exatamente por isso que eu não saiba ser ficante.
Porque eu não consigo entregar metade de mim enquanto tento fingir que não estou envolvida.
Eu até consigo agir como se não me importasse.
Consigo ser racional.
Consigo dizer para mim mesma que é só uma coisa casual.
Mas, quando eu realmente gosto, meu coração não entende muito bem esse contrato de “vamos ficar, mas sem criar vínculo”.
Eu crio vínculo.
É inevitável.
E não acho que isso seja um defeito.
Só significa que preciso encontrar alguém que funcione de uma maneira parecida.
Alguém que também veja uma relação como um lugar onde duas pessoas podem se conhecer profundamente e, se fizer sentido, crescer juntas.
E aqui existe uma diferença importante: eu não quero alguém que prometa ficar comigo para sempre.
Quero alguém que tenha intenção de me conhecer.
Que tenha curiosidade sobre quem eu sou.
Que queira descobrir se somos bons um para o outro.
Porque, para mim, relacionamento não deveria começar com a certeza de que vai dar certo.
Deveria começar com a disposição de descobrir.
Talvez a gente se descubra completamente diferente.
Talvez nossos sonhos não combinem.
Talvez nossas formas de amar sejam incompatíveis.
Talvez, depois de alguns meses, a gente perceba que não consegue construir uma vida juntos.
Tudo bem.
Eu consigo aceitar um fim.
O que eu tenho dificuldade de aceitar é uma relação em que ninguém sabe exatamente o que está fazendo, mas continua ali porque é confortável demais para ir embora.
Eu preciso de alguma estabilidade emocional para conseguir viver o restante da minha vida.
Porque eu também tenho meus sonhos.
Tenho meus objetivos.
Tenho coisas que quero construir.
E, para conseguir olhar para eles com tranquilidade, preciso saber minimamente onde estou emocionalmente.
Não quero passar meus dias tentando interpretar mensagens, descobrir se a pessoa está saindo com outra, imaginando se ela gosta de mim o suficiente ou me perguntando se amanhã ainda estaremos fazendo parte da vida um do outro.
Não quero que uma relação ocupe um espaço tão grande na minha cabeça justamente porque ela não tem definição.
Eu prefiro uma verdade que talvez doa a uma dúvida que se prolonga.
Prefiro ouvir: “não quero construir isso com você” do que passar meses tentando descobrir.
Prefiro saber que não somos compatíveis do que viver tentando me adaptar para caber em uma relação que não me oferece segurança.
E talvez seja isso que eu tenha aprendido sobre mim.
Eu não preciso que todo mundo queira o mesmo tipo de relação que eu.
Só preciso não me abandonar para conseguir permanecer em uma.
Posso ser moderna, mente aberta, independente e ainda querer um relacionamento tradicional em algumas coisas.
Posso acreditar na liberdade e, ao mesmo tempo, querer exclusividade.
Posso não querer controlar ninguém e ainda assim saber que não consigo viver bem em uma relação sem definição.
Não existe contradição nisso.
Existe apenas autoconhecimento.
Eu sei o que acontece comigo quando gosto de alguém.
Eu me entrego.
Eu cuido.
Eu torço.
Eu me esforço.
Eu quero construir.
E, justamente por saber disso, hoje eu prefiro não oferecer esse tipo de amor para alguém que está apenas tentando descobrir se quer ficar.
Não quero ser o intervalo entre uma pessoa e outra.
Não quero ser uma possibilidade.
Não quero ser “vamos ver”.
Eu quero poder olhar para alguém e dizer:
“Eu escolho você. Vamos descobrir juntos se conseguimos construir alguma coisa bonita.”
E ouvir, do outro lado:
“Eu também escolho você.”
Talvez seja simples demais.
Talvez seja careta.
Talvez não combine com o mundo dos relacionamentos de hoje.
Mas combina comigo.
E, no fim das contas, é isso que importa.
Eu não preciso aprender a ser ficante.
Preciso apenas encontrar alguém que também queira construir um vínculo comigo.

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