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25/10/2026
Amor-próprio não é um mar de rosas: é escolher a si mesma até quando dói
Existe uma versão do amor-próprio que parece muito bonita nas redes sociais. Nela, a gente aprende a reconhecer o próprio valor, estabelece limites, afasta tudo aquilo que não nos faz bem e, de repente, a vida começa a fluir. As pessoas certas chegam, as erradas vão embora e nós finalmente encontramos aquela paz que tanto procurávamos.
É uma narrativa bonita, mas um pouco distante da realidade.
Porque ninguém nos conta que, às vezes, a escolha certa também machuca. Que estabelecer limites pode significar perder pessoas de quem gostamos muito. Que sair de uma relação que não nos oferece aquilo de que precisamos não impede que sintamos saudade. E que romper uma amizade que já não nos faz bem não apaga os anos de carinho, as lembranças ou a importância que aquela pessoa teve na nossa vida.
Talvez tenhamos aprendido a romantizar tanto o amor-próprio que esquecemos que ele também tem dias difíceis.
Amar a si mesma não significa viver em um estado permanente de segurança, confiança e felicidade. Não significa nunca mais se sentir insuficiente, nunca mais ter medo de perder alguém ou nunca mais desejar que uma situação tivesse terminado de outra maneira.
Significa aprender a cuidar de si também quando esses sentimentos aparecem.
E essa é uma aprendizagem que não termina.
Amar a si mesma é um exercício diário, não uma conquista definitiva
A gente gosta de imaginar que existe um momento em que finalmente chegamos lá. Um dia em que estaremos tão bem resolvidas que nada nem ninguém conseguirá abalar a nossa paz. Como se o amor-próprio fosse um destino, uma espécie de certificado que recebemos depois de superar as nossas inseguranças.
Mas a vida não funciona assim.
Há dias em que conseguimos reconhecer os nossos limites com clareza. Em outros, sentimos vontade de abrir uma exceção para alguém de quem gostamos. Há momentos em que sabemos exatamente o que merecemos e outros em que precisamos nos lembrar de tudo o que já aprendemos para não voltar a aceitar situações que nos machucam.
E isso não significa que regredimos.
Somos pessoas em constante transformação, atravessadas por experiências, desejos, carências, medos e contradições. O que conseguimos fazer com tranquilidade hoje talvez seja difícil amanhã. Uma decisão que parecia muito clara pode se tornar dolorosa quando precisamos lidar com as consequências dela.
O amor-próprio precisa ser cultivado justamente porque não estamos imunes às nossas próprias fragilidades.
É escolher descansar quando estamos acostumadas a nos cobrar demais. É reconhecer que precisamos mudar de direção, mesmo depois de investir tanto tempo em um caminho. É ter coragem para admitir que uma relação não está funcionando, que uma amizade deixou de ser saudável ou que estamos insistindo em alguma coisa apenas porque temos medo de perder o que já conhecemos.
E, principalmente, é compreender que não precisamos acertar todas as vezes para continuar merecendo o nosso próprio cuidado.
Amar a si mesma não é nunca mais se abandonar. É perceber quando isso está acontecendo e encontrar, mais uma vez, o caminho de volta.
Algumas escolhas necessárias também são despedidas
Talvez uma das maiores ilusões sobre o amor-próprio seja acreditar que, quando finalmente aprendemos a nos valorizar, fica fácil ir embora.
Não fica.
Às vezes, a gente sabe que precisa se afastar de alguém e, mesmo assim, gostaria que existisse outra solução. Gostaria que a pessoa compreendesse o que estamos sentindo, que as coisas pudessem ser diferentes ou que o carinho que existe entre nós fosse suficiente para fazer a relação funcionar.
Não queremos necessariamente perder aquela pessoa. Queremos apenas deixar de sofrer na relação com ela.
Mas nem sempre podemos escolher as duas coisas.
Há relações em que permanecer significa abrir mão de necessidades importantes. Amizades em que precisamos silenciar desconfortos para não criar conflitos. Vínculos em que recebemos carinho, mas não a reciprocidade de que precisamos. Situações em que continuamos esperando uma mudança que talvez nunca aconteça.
E chega um momento em que precisamos decidir o que fazer com tudo isso.
O problema é que escolher a nós mesmas não significa deixar de gostar do outro.
Podemos nos afastar de alguém e continuar torcendo pela sua felicidade. Podemos encerrar uma amizade e sentir falta das conversas. Podemos reconhecer que uma relação amorosa não tem futuro e ainda desejar que tivesse dado certo.
A decisão de ir embora não apaga o sentimento que nos fez querer ficar.
Talvez seja justamente por isso que algumas escolhas exijam tanto de nós. Não estamos necessariamente deixando para trás algo que nunca teve valor. Estamos, muitas vezes, abrindo mão de algo que foi importante porque compreendemos que a importância de uma relação não é suficiente para torná-la boa para nós em todas as circunstâncias.
E existe uma tristeza muito particular em aceitar isso.
Nem toda despedida acontece porque deixamos de amar. Algumas acontecem porque precisamos parar de nos machucar tentando fazer caber na nossa vida aquilo que, da maneira como existe, já não nos faz bem.
Nem tudo vai sair como queremos, mesmo quando fazemos a escolha certa
Existe outra coisa que precisamos aceitar: o amor-próprio não nos dá controle sobre os resultados da vida.
Podemos tomar uma decisão difícil, respeitar os nossos limites e ainda assim terminar com o coração partido. Podemos sair de uma relação que não nos fazia bem e passar meses sentindo falta daquela pessoa. Podemos romper uma amizade que já não fazia sentido e perceber que a solidão deixada por ela é maior do que imaginávamos.
Podemos fazer tudo aquilo que acreditamos ser necessário e, ainda assim, não encontrar imediatamente a paz que esperávamos.
E o que fazemos quando isso acontece?
Será que começamos a duvidar da nossa decisão? Será que pensamos que talvez devêssemos ter tolerado um pouco mais, esperado um pouco mais ou tentado mais uma vez?
Às vezes, sim.
Porque é difícil lidar com a ideia de que uma escolha pode ser necessária e continuar doendo. Gostaríamos que a vida nos recompensasse imediatamente por termos tido coragem. Que, depois de uma despedida, viesse uma sensação de alívio tão grande que não sobrasse espaço para a saudade.
Mas não existe essa garantia.
O amor-próprio não é uma negociação com a vida. Não fazemos escolhas saudáveis para receber, em troca, uma existência sem decepções. Não estabelecemos limites para garantir que as pessoas vão nos respeitar, nem encerramos relações para assegurar que encontraremos alguém melhor.
Fazemos essas escolhas porque precisamos ser honestas com aquilo que conseguimos viver, com o que desejamos e com o que já não queremos aceitar.
O resultado nem sempre está nas nossas mãos.
Talvez a pessoa não volte. Talvez a amizade não possa ser recuperada. Talvez o relacionamento seguinte também não dê certo. Talvez um projeto pelo qual nos dedicamos muito não aconteça como planejamos.
E nada disso significa, por si só, que falhamos em amar a nós mesmas.
A vida continua sendo imprevisível, mesmo quando aprendemos a fazer escolhas mais conscientes.
Amor-próprio também é aprender a conviver com a inconstância
Somos seres inconstantes. Mudamos de opinião, de desejos, de planos e de sentimentos. Há dias em que estamos cheias de coragem e outros em que temos vontade de voltar para tudo aquilo que nos era familiar, mesmo quando sabemos que já não nos fazia bem.
Às vezes, temos certeza de que estamos no caminho certo. Em outras ocasiões, olhamos para trás e sentimos saudade daquilo que escolhemos deixar.
Acho que existe muita humanidade nisso.
Durante muito tempo, talvez tenhamos acreditado que amadurecer significava chegar a um ponto em que não teríamos mais dúvidas. Que uma pessoa segura de si não sentiria vontade de voltar atrás, não se arrependeria e não seria afetada pelas próprias escolhas.
Mas segurança não é ausência de conflito.
Podemos sentir saudade e continuar sabendo por que fomos embora. Podemos sentir medo e ainda assim tomar uma decisão importante. Podemos ter dias de insegurança sem que todo o nosso progresso desapareça.
O amor-próprio também está em não transformar cada oscilação emocional em uma sentença sobre quem somos.
Sentir falta não significa que precisamos voltar. Sentir solidão não significa que devemos aceitar qualquer companhia. Ter dúvidas não significa que fomos incapazes de tomar uma decisão.
E, se em algum momento percebermos que erramos, também podemos rever as nossas escolhas. Amar a nós mesmas não exige rigidez, muito menos a obrigação de provar que sempre estivemos certas.
Talvez a verdadeira maturidade esteja em aprender a escutar o que sentimos sem permitir que cada sentimento determine imediatamente o que faremos.
Porque nem toda vontade precisa virar ação. Nem toda saudade é um convite para recomeçar. E nem toda dor é um sinal de que escolhemos o caminho errado.
Às vezes, a dor é apenas parte do caminho que precisamos atravessar.
Não precisamos estar bem o tempo inteiro para estarmos cuidando de nós
Existe uma cobrança silenciosa em torno do desenvolvimento pessoal. Além de lidar com as dificuldades da vida, precisamos demonstrar que estamos lidando com elas da maneira correta. Precisamos ser resilientes, estabelecer limites, reconhecer padrões, amadurecer e transformar cada experiência dolorosa em uma grande lição.
Até o sofrimento parece precisar ter alguma utilidade.
Mas e se, em alguns momentos, tudo o que conseguirmos fazer for sentir?
E se precisarmos de tempo para compreender uma despedida? E se houver dias em que a saudade for maior do que a nossa disposição para seguir em frente? E se, mesmo sabendo que precisamos cuidar de nós, ainda sentirmos vontade de ser escolhidas por alguém que não nos escolheu da mesma maneira?
Não precisamos nos envergonhar dessas contradições.
O amor-próprio não deveria ser mais uma meta impossível, mais um padrão de comportamento que usamos para julgar a nós mesmas. Não precisamos transformar cada tristeza em uma oportunidade de crescimento, nem encontrar uma explicação bonita para tudo o que nos acontece.
Podemos simplesmente reconhecer que estamos sofrendo.
Podemos admitir que uma escolha foi necessária e que gostaríamos que ela não tivesse sido necessária. Podemos aceitar que uma pessoa fez parte da nossa história e que não sabemos ainda como nos acostumar à sua ausência.
Cuidar de nós também é respeitar o tempo que levamos para processar as coisas.
Não precisamos apressar a recuperação para provar que somos fortes. Não precisamos fingir indiferença para demonstrar que superamos alguém. Não precisamos estar sempre confiantes para continuar merecendo respeito, carinho e paciência, inclusive de nós mesmas.
Há momentos em que o maior gesto de amor-próprio não é fazer alguma coisa extraordinária.
É apenas não se tratar com crueldade enquanto tentamos descobrir como seguir em frente.
Talvez amar a si mesma seja aprender a permanecer ao seu lado
No fim das contas, acho que o amor-próprio tem muito menos a ver com uma vida perfeita do que costumamos imaginar.
Não é sobre nunca mais sofrer por alguém, nunca mais perder uma amizade ou nunca mais se decepcionar. Não é sobre se tornar uma pessoa tão resolvida que nada consiga nos atingir.
É sobre construir uma relação conosco que possa sobreviver também aos dias em que não estamos bem.
É continuar nos respeitando quando sentimos saudade. É não diminuir as nossas necessidades para evitar uma despedida. É reconhecer os nossos erros sem transformar cada um deles em uma prova de que não somos suficientes. É compreender que a vida pode não corresponder às nossas expectativas sem que precisemos abandonar quem somos para tentar controlar seus resultados.
E é aceitar que, mesmo depois de aprendermos tanta coisa, continuaremos tendo momentos de fragilidade.
Talvez, em alguns dias, o amor-próprio seja a coragem de ir embora. Em outros, seja a paciência de permanecer em uma situação difícil enquanto encontramos uma solução. Às vezes, será estabelecer um limite. Em outras, reconhecer que precisamos rever um limite que já não faz sentido.
Não existe uma única maneira de praticá-lo, porque nós também não somos sempre as mesmas.
O que existe é a possibilidade de continuar construindo essa relação, dia após dia, sem exigir que ela seja perfeita.
Talvez a gente nunca chegue a um lugar em que todas as nossas escolhas sejam fáceis, todas as despedidas sejam tranquilas e todos os nossos desejos encontrem correspondência na realidade.
Talvez a vida continue nos surpreendendo, mudando os planos e nos obrigando a rever aquilo que acreditávamos saber.
E tudo bem.
Amar a si mesma não significa conseguir fazer com que a vida seja exatamente como tu queres. Significa aprender a viver com aquilo que não podes controlar sem perder completamente de vista aquilo que depende de ti.
Significa entender que podes sentir falta de alguém sem precisar voltar, que podes estar triste sem estar fracassando e que podes mudar de ideia sem deixar de respeitar a pessoa que foste ontem.
No fundo, talvez o amor-próprio não seja a promessa de que tudo vai dar certo.
Talvez seja o compromisso de não abandonar a nós mesmas quando as coisas não saem como gostaríamos.
E, em uma vida cheia de incertezas, mudanças e despedidas, isso já é muita coisa.

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